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13 de Novembro de 2019 às 22:30

Quem não está preocupado não está entendendo

Memorial da América Latina (SP): as veias abertas da América Latina continuam a sangrar

A invasão da Embaixada da Venezuela no Brasil na manhã desta quarta-feira (13) em Brasília por grupos paramilitares ligados ao golpista Juan Guaidó expôs ainda mais  o realinhamento de forças na América Latina assim como a dificuldade de candidaturas notadamente antipovo em vencer eleições democraticamente.

O ataque acontece no primeiro dia da Cúpula do BRICS, agrupamento de países de mercados emergentes do qual o ex-presidente Lula foi um dos grandes articuladores para construir-se uma terceira via em um cenário mundial que caminha a passos largos para uma nova polarização, desta vez entre China e EUA.

Para entender a movimentação em torno da América Latina e a truculência com que têm sido tratados os povos latino-americanos é preciso revisitar a história das veias abertas deste continente que nunca deixou de sangrar. Ao mesmo tempo é urgente contextualizar episódios que devem nortear as ações de movimentos sociais populares, entidades de defesa dos trabalhadores e todos aqueles que lutam para construir um mundo verdadeiramente justo e solidário.

Após uma década de governos progressistas no continente americano, período este em que os olhos dos EUA estiveram voltados para o Oriente Médio, inclusive com a invasão de diversos países produtores ou indiretamente responsáveis pela rota do petróleo, a América Latina elegeu projetos populares que garantiram direitos e distribuição de renda. No entanto, a sanha imperialista estadunidense nunca foi segredo e a publicação dos documentos do Wikileaks, bem como os casos de espionagem tornados públicos recentemente expuseram o monitoramento de lideranças brasileiras e tentativas de influenciar processos eleitorais.

Historicamente os EUA sempre agiram para proteger seus negócios, sejam como Estado ou como fiadores de empreendimentos de seus compatriotas mundo afora. Foi assim nos golpes militares devidamente documentos e reconhecidos como na Nicarágua, Brasil, Chile, Argentina e Uruguai, para citar novamente a América Latina. Porém, o que antes era tratado como mera disputa territorial hoje pode ser visto sob a perspectiva de novos mercados e, obviamente, o cartel do petróleo que não se cansa de vilipendiar a Venezuela (segundo maior produtor mundial de petróleo e geogrficamente muito mais perto do que outros países do Oriente Médio). É importante lembrar aqui também a descoberta do pré-sal brasileiro e o ataque à Petrobras, que passou a investir estrategicamente em tecnologia, mas que sofre com ameaças de privatização e sucateamento, assim como outras estatais estratégicas para a autonomia brasileira (como também Correios e Eletrobrás, por exemplo).

Nesse contexto - após o golpe institucional sofrido por Fernando Lugo no Paraguai em 2012 - nasce a Operação Lava Jato que, ao contrário de qualquer outra operação policial já vista, não se restringiu a investigar e prender, mas também destruiu completamente empresas nacionais, como o caso de empreiteiras que estavam envolvidas em projetos sigilosos de segurança. Não cabe aqui fazer um balanço moral ou técnico da operação, mas sua seletividade se tornou ainda mais questionável após o vazamento de conversas onde fica evidente que membros do Ministério Público Federal utilizaram o judiciário para perseguir politicamente o que consideravam opositores. O maior exemplo dessa perseguição é o ex-presidente Lula, que também é o maior líder popular e responsável pela reformulação da política externa com o fortalecimento do Mercosul, a já citada articulação do BRICS e um projeto de segurança que visava proteger as fronteiras de eventuais ataques e/ou interesses estrangeiros.

O sucesso de golpes institucionais se explica principalmente pelo fato de que após a 2ª Guerra Mundial, países que consolidaram suas tradições e instituições jurídicas foram considerados democracias “fortes”, tendo portanto o poder judiciário grande apelo e prestígio junto à sociedade. Soma-se a isso a mídia corporativista mundial, cuja construção das narrativas sempre tendem aos interesses dos donos do capital.

Em meio a tudo isso ainda há de se mencionar a última grande crise do capitalismo que já dura mais de uma década e para a qual os bancos jamais deram respostas, mas ao contrário, continuam cobrando de quem menos tem para obter lucros extraordinários. É, portanto, nesse contexto de perseguição de líderes populares, desrespeito à soberania dos países e da legitimidade do voto que o fascismo tem escalado vertiginosamente na América Latina. O violento golpe na Bolívia abriu precedentes para uma nova forma de agir, aliada ao fundamentalismo religioso e organizações paramilitares como as milícias. 

A prisão do ex-presidente Lula em um projeto de evidente farsa jurídica, bem como a reparação de sua liberdade configuram um cenário de incertezas que não admite mais a covardia. É preciso que todos os que lutam por um país livre assumam suas posições e se organizem enquanto ainda é possível construir o diálogo e a resistência a um projeto que quer deixar a América Latina de joelhos, como mercadoria de troca no cenário internacional. O autoritarismo do Governo Bolsonaro e sua subserviência aos EUA não apenas causam vergonha, como também colocam em risco a vida e a paz de todo o povo brasileiro. 

São tempos difíceis e a preocupação é grande, mas o medo não pode paralisar quem sempre esteve na luta. Mais uma vez é preciso defender os ideais democráticos e a dignidade humana. A participação política não deve ser entendida como mera formalidade eleitoral, mas um engajamento real de organização e mobilização. Por isso a FENTECT, como representante nacional dos trabalhadores dos Correios, reafirma seu compromisso com a defesa dos interesses populares e contra a tirania de quem ainda não entendeu que a democracia é inevitável porque o povo é imprescindível.

 


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